Capitalismo, o único modo de produção que furta o Homem de si mesmo

O processo e a essência de constituição da mais-valia, aliada e - de certa forma também resultante – da alienação material, produz por fim um fetichismo da sociedade, que tem por característica deturpar a consciência do Homem face a própria mercadoria que produziu, visto que aí se toma apenas como consumidor e não como produtor efetivo, e também acarreta numa crescente mercantilização de todas as produções humanas, não só materiais, mas culturais e artísticas.
Esse sistema de mais-valias, o capitalismo em si mesmo, tem como subterfúgio também garantir um mínio possível de conforto, para que, senão todos, grande parte dos indivíduos a ele submetidos sinta-se satisfeito com o que já tem, permanecendo alheia a verdadeira realidade desigual que é por ela engendrada e por isso não tenham a consciência e a vontade necessárias para furtar-se desse sistema e eximir a exploração.
Com essa outra espécie de móbil explorador, uma indústria cultural é estruturada pelo capitalismo como outro meio de alienar o homem de sua própria condição, posto que a mercantilização da arte e da cultura destoa-lhe de sua própria reflexão ao introduzir-se no seu momento de descanso, ao inserir-lhe produtos que só lhe fazem esquecer da exploração que positivamente é vítima e, por conseguinte, ao incorporá-lo a uma massa homogênea que se conforma, graças à produção cultural ignorante, aos vilipêndios ignominiosos desse sistema. Assim, é em decorrência de sua alienação da consciência, engendrada pela alienação prática do trabalho, que o Homem não se percebe explorado, ou antes, se coloca como colaborador de um sistema de produção quando, de fato, nada mais é do que um simples fantoche, explorado, de uma máquina capitalista.
Dessa exploração de um pequeno grupo de homens sobre um incomensurável montante de outros, gera-se, primeiramente, uma desigualdade em quase todos os âmbitos constitutivos de uma sociedade civil e estatal, na qual muitos indivíduos sanam suas prerrogativas de existência precariamente, enquanto uma pequena parcela privilegiada de indivíduos, que não exerce ofícios nessa mesma sociedade – em outras palavras, indivíduos que não trabalham -, deleita-se na luxúria e goza de um conforto extremamente fútil.
Em segundo lugar, quase que coadunada a desigualdade social, mas também produto desta, outra conseqüência decorrente da exploração é miséria e a fome avassaladoras que, à medida que se alastram por todas as esferas da população explorada, tornam-se a força motriz de movimentos sociais e revoluções proletárias que reivindicam condições... igualitárias de vida e a extinção desse sistema econômico-social-político.
Por fim, outro fator engendrado por essa exploração e que diz respeito à vida do Homem como um ser pensante e humano além das condições materiais consiste na alienação de sua liberdade e de sua realidade. Consoante ao esforço despendido em seu ambiente de produção e em grande parte em razão do fato de receber um salário, o indivíduo proletário toma-se como um homem livre e apartado do escravismo ou servilismo, muito embora esse mesmo valor salarial, decorrente da mais-valia, reduza-o a uma simples peça explorada nessa rede capitalista. Junto a isso, a indústria cultural faz por reiterar esse processo de alheamento da realidade e, o que é pior, segundo Marx, faz por abstraí-lo de sua própria consciência pensante e criadora de sua história, de sua própria condição de sujeito de sua razão e autônomo, emancipado das limitações naturais, livre da racionalidade de outros homens e livre para viver segundo as consecuções de sua própria consciência esclarecida.
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