Para se compreender melhor e efetuar uma análise segura das formas de poder que atuam em nossa sociedade tal qual acima já se fez menção, é necessário principiar do começo. Em contraposição a nossa realidade política e social, nos tempos pretéritos da organização política, mais especialmente o período político fundamentado sobre o modelo hobbesiano de poder, ao soberano era delegado a função de fazer morrer e deixar viver, ou seja, à figura inveterada do detentor do poder cabia a função de domesticar seus súditos por meio de um poder disciplinador fundamentado sobre o medo da punição à vida; mantinha-se assim a ordem social e os indivíduos consentiam com a doutrinação, da qual eram vítimas, em razão da manutenção de suas afecções e da proteção de seu bem mais estimado e intransferível: a vida.
Entretanto, com a expansão demográfica advinda de diversos fatores, dentre eles as melhorias das condições de vida decorrentes dos avanços científicos e das inovações tecnológicas, o mesmo modelo político contratualista tornou-se insuficiente para exercer, de foram completa, a antiga função que lhe era devida. Para atender às novas necessidades de um conjunto de indivíduos, agora integrados sob a designação de população, sem que a coerção e o controle se tornassem menos efetivos, criaram-se os aparatos burocráticos, órgãos públicos e outras instituições inexistentes em contextos políticos remotos. Assomando-se a isso, ao poder disciplinador despendido durante séculos, de cima para baixo, sobre os indivíduos-súditos, incrementou-se o poder de vigilância, cujo papel consistia (e ainda consiste) em vigiar o agora não-súdito de tal forma que a disciplina por ele e nele internalizada durante esse período ininterrupto de dominação hobbesiana, não padecesse e que a ordem já consumada não fosse objeto de iniqüidades.
Neste ponto, convergido também pela ascensão da burguesia e da proeminência de sistemas de governo e distribuição de poder que favoreciam as afecções dessa classe, a soma dos fatores populacionais, vigilantes e disciplinadores originou o que Focault classificou como biopoder. Este novo atuante das sociedades modernas, pontificando a ruptura definitiva com a época anterior, inverteu a lógica já mencionada, promovendo uma nova forma de agir embasada sobre o fazer viver e o deixar morrer, onde a função do Estado, e igualmente de seus instrumentos burocráticos e sociais, volveu-se a conceber melhores condições de vida e proteção aos que dele dependiam e lhe forneciam a fonte de subsistência; em outras palavras, o biopoder (dividido em macro e micro poderes) principiou-se como forma de exercer controle nas mais ínfimas frações da vida dos indivíduos, fazendo emergir novos cuidados às vidas destes a fim de fazerem-lhes despender a saúde revigorada e expandida por esse mecanismo na produção e no trabalho a que estão encarregados.
Profissionalização da saúde, distribuição de vacinas, hospitais públicos, auxílio psicológico, entre outros, são bons exemplos desse biopoder.
Aliado a esse novo aparato, a indústria cultural e outras instituições, tais quais a escola, a hierarquia profissional e o ambienta de trabalho e a mídia, fizeram sobrepujar o antigo poder disciplinador a um segundo plano e, enquanto faziam recrudescer função de vigilância nelas contidas, fizeram da vida do indivíduo mais um capital da sociedade, em torno do qual giram as consecuções estatais, os órgãos privados e os próprios indivíduos.
Dessa forma, à medida que o indivíduo é absorvido pelo biopoder enquanto ser integrante da população, vigiado pelas instituições e sequioso de mais segurança, uma vez que sua vida é o bem mais estimado para si e também para o Estado (como fonte de renda), ele vê-se colaborador especialmente pelo fato de prover a própria segurança e a dos que com ele partilham do espaço público de trabalho – ou mesmo privado – quando, em verdade, não é senão mais uma vítima dessa dominação capitalista; e como já foi dito ainda no primeiro parágrafo, os poderes que atuam em nossa sociedade contemporânea, internalizadas nos próprios indivíduos que também exercem a vigilância e a disciplina, tornam-se por essa razão dificílimas de distinguir no cotidiano social, sendo que a pessoa humana é vilipendia ao máximo por esses mesmos poderes, sem conscientizar-se de sua realidade, e suplantada, em sua totalidade, por essa doutrinação autoritária contemporânea, que o faz, por conseguinte, desconhecer sua própria identidade e se constituir como mais uma engrenagem dócil e bem formatada para a maquinaria estatal-burguesa.